"A alegria não chega apenas no encontro do achado, mas faz parte do processo da busca. E ensinar e aprender não dar-se fora da procura, fora da boniteza e da alegria". Paulo Freire

terça-feira, 15 de novembro de 2011

1º Módulo - Formação em Educação Popular: Educação Contextualizada para convivência com o Semiárido na perspectiva da Pedagogia da Alternância

A Rede de Educação Cidadã do Ceará realiza 2º Curso de Formação em Educação Popular: Educação Contextualizada para convivência com o Semiárido na perspectiva da Pedagogia da Alternância


Negar aos filhos da classe trabalhadora o acesso aos bens imateriais é permitir que estes busquem com violência os bens materiais ou que se desgarrem da sua terra e da sua gente.
Partindo dos Princípios 4º e 5º (e suas respectivas diretrizes) do nosso Projeto Político Pedagógico realizamos nestes dias 28, 29 e 30 de outubro de 2011, na cidade de Independência/Ce, o 1º Módulo do Curso de Formação em Educação Popular: Educação Contextualizada para Convivência com o Semiárido na Perspectiva da Pedagogia da Alternância.
Somente uma educação impregnada de sentido é capaz de mudar vidas e sociedade, foi o que vivenciamos neste primeiro momento do curso.
A Escola de Educação Familiar Agrícola Dom Fragoso é uma realidade que transforma vidas e práticas através de um currículo contextualizado e de práticas alternativas de convivência na terra, com a terra e para a terra.
A apropriação de saberes diferentes se faz a partir da leitura de mundo e do conhecimento da realidade local e de mundo bem como do resgate e valorização da cultura e da história de vida de seus antepassados.

A educação contextualizada gera vida, esperança e concretiza sonhos e saberes individuais e coletivos através da práxis: ação – reflexão – ação compartilhada entre escola – família – comunidade.
Como dizia Paulo Freire: “mudar é difícil, mas é possível.” A EFA Dom Fragoso é prova concreta e real disso. Mesmo com grandes desafios , experimentando a cada instante transformam vidas no Semiárido dos Inhamuns.
Acreditar é preciso, ser Feliz, no Semiárido, é possível.
Sonia Taveira

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Apresentação

O 2º Curso Estadual de Formação em Educação Popular é a continuação processual do Plano de Formação da Rede de Educação Cidadã do Ceará – Recid-CE, que, em parceria com a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República e Associação dos Educadores Populares do Ceará – Movimento Ceará, pensaram uma proposta de formação em educação popular com enfoque na perspectiva da Pedagogia da Alternância, voltada para o diálogo, empoderamento e fortalecimento das práticas pedagógicas e técnicas que visam uma melhor e adequada convivência com o Semiárido brasileiro, indo de encontro a construção de um Projeto Popular para o Brasil.


A Rede de Educação Cidadã – Recid é uma articulação de diversos atores sociais, entidade e movimentos populares do Brasil que assumem solidariamente a missão de realizar um processo sistemático de sensibilização, mobilização e educação popular da população brasileira, principalmente das famílias em vulnerabilidade social, promovendo o diálogo e a participação ativa na superação da miséria, afirmando um projeto popular, democrático e soberano de nação

Público Alvo

O curso pretende fortalecer os vários sujeitos que estão inseridos nos processos formativos e de militância da Recid, bem como de outras Redes, movimentos e entidades que dialogam com a proposta pedagógica crítico popular freireana. Estes sujeitos atuam nos mais diversos espaços, sejam quilombolas, mulheres, jovens, economia solidária, agricultura familiar, cultura, meio ambiente, e instâncias governamentais, afim de fomentar e gerar transformação social dos populares em suas regiões.

Objetivos do Curso:

O 2° Curso Estadual de Formação em Educação Popular: Educação Contextualizada para Convivência com o Semiárido na perspectiva da Pedagogia da Alternância, objetiva aprofundar não só teoricamente, mas também de forma prática (práxis), os seus participantes afim de que estes com o devido empoderamento de práticas pedagógicas e técnicas de convivência com o semiárido possam contribuir nos processos ambientais e humanos das comunidades e territórios onde atuam.

Metodologia e conteúdos:

O curso será realizado em três módulos facilitados por Educadores, Militantes da Educação Popular e Contextualizado em conjunto com o coletivo da Rede de Educação Cidadã – Recid/CE, com os seguintes conteúdos:

1º Módulo: Conceitos e vivências de Educação Contextualizada,

2º Módulo: Educação Contextualizada: Ética, Política e Sociedade,

3º Módulo: A Mística e a Militância na Educação popular.

Períodos e datas:

Inscrições: 17 a 24 de outubro de 2011

e-mails: movimento.ceara@gmail.com

recidce@yahoogrupos.com.br

1º Módulo: 28, 29 e 30 de outubro de 2011

2º Módulo: 18, 19 e 20 de novembro de 2011

3º Módulo: 02, 03 e 04 de dezembro de 2011

Local

O curso será de forma itinerante afim de visualizar e potencializar as várias experiências de educação popular e contextualizada do nosso estado.

1º Módulo: Escola de Família Agrícola Dom Fragoso – Independência, Ce (Sertões dos Inhamuns).

2º Módulo: Comunidade Chico Gomes – Crato, CE.

3º Módulo: Projeto Sertão Vivo – Comunidade de Arueira, Orós, Ceará.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Homenagem a um imortal: Paulo Freire, 90 anos


“Educar é impregnar de sentido o que fazemos a cada instante”
(Paulo Freire)

Reconhecido internacionalmente, Paulo Freire, o mais famoso educador brasileiro, criou em 1960 o método de alfabetização para adultos. Tinha a pretensão de alfabetizar 5 milhões de adultos mas, veio a ditadura militar e ele foi exilado do Brasil. Morreu de enfarte aos 75 anos.

O grande homem que levou o nome do Brasil para o mundo no campo da Educação Popular; nasceu em Pernambuco, em 19 de setembro 1921 na cidade do Recife. Foi alfabetizado pela mãe, que o ensina a escrever com pequenos galhos de árvore no quintal da casa da família. Com 10 anos de idade, a família mudou para a cidade de Jaboatão. Na adolescência começou a desenvolver um grande interesse pela língua portuguesa. Com 22 anos de idade, Paulo Freire começa a estudar Direito na Faculdade de Direito do Recife. Enquanto cursava a faculdade de direito, casou-se com a professora primária Elza Maia Costa Oliveira. Com a esposa, tem teve cinco filhos e começou a lecionar no Colégio Oswaldo Cruz em Recife.
No ano de 1947 foi contratado para dirigir o departamento de educação e cultura do Sesi, onde entra em contato com a alfabetização de adultos. Em 1958 participa de um congresso educacional na cidade do Rio de Janeiro. Neste congresso, apresenta um trabalho importante sobre educação e princípios de alfabetização. De acordo com suas idéias, a alfabetização de adultos deve estar diretamente relacionada ao cotidiano do trabalhador. Desta forma, o adulto deve conhecer sua realidade para poder inserir-se de forma crítica e atuante na vida social e política.
No começo de 1964, foi convidado pelo presidente João Goulart para coordenar o Programa Nacional de Alfabetização. Logo após o golpe militar, o método de alfabetização de Paulo Freire foi considerado uma ameaça à ordem, pelos militares.Viveu no exílio no Chile e na Suíça, onde continuou produzindo conhecimento na área de educação. Sua principal obra, Pedagogia do Oprimido, foi lançada em 1969. Nela, Paulo Freire detalha seu método de alfabetização de adultos. Retornou ao Brasil no ano de 1979, após a Lei da Anistia.
Durante a prefeitura de Luiza Erundina, em São Paulo, exerceu o cargo de secretário municipal da Educação. Depois deste importante cargo, onde realizou um belo trabalho, começou a assessorar projetos culturais na América Latina e África. Morreu na cidade de São Paulo, de infarto, em 2/5/1997.
A Rede de Educação Cidadã, não só do Estado do Ceará , mas de todo o Brasil, pauta suas ações na metodologia crítico-freiriana, com atividades formativas realizadas por meio da vivência teórico-metodológica (em círculos de Culturas que permitem a leitura do mundo, o aprofundamento teórico e a elaboração de estratégias de ação: a prática reflexiva) têm possibilitado a re-criação permanente do legado de Paulo Freire em espaços como oficinas, encontro intermunicipais, cursos processuais e contínuos de educação popular, grupos de estudos e de trabalho, intercâmbios, como também a participação em seminários, debates e campanhas.


“Não basta saber ler que Eva viu a uva. É preciso compreender qual a posição que Eva ocupa no seu contexto social, quem trabalha para produzir a uva e quem lucra com esse trabalho.”

Não poderíamos deixar de homenagear este ícone maior da nossa educação, que muito lutou para uma sociedade mais humana, viva, sem deminações, como também de compartilhar com todos e todas (educadores populares, sociasi, movimentos, militantes, ONG’s) que sonham e lutam pelo mesmo ideal de sociedade cearense, nordestina, brasileira, humana!

“Não é no silêncio que os homens se fazem, mas na palavra, no trabalho, na ação-reflexão”

Alguns ensinamentos de Paulo Freire:
“Não há saber mais ou saber menos: Há saberes diferentes.”
"A Educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tão pouco a sociedade muda"
“Ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo.”
“Eu sou um intelectual que não tem medo de ser amoroso, eu amo as gentes e amo o mundo. E é porque amo as pessoas e amo o mundo, que eu brigo para que a justiça social se implante antes da caridade.”

Obras do educador Paulo Freire:
• A propósito de uma administração. Recife: Imprensa Universitária, 1961.
• Conscientização e alfabetização: uma nova visão do processo. Estudos Universitários – Revista de Cultura da Universidade do Recife. Número 4, 1963: 5-22.
• Educação como prática da liberdade. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1967.
• Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1970.
• Educação e mudança. São Paulo: Editora Paz e Terra, 1979.
• A importância do ato de ler em três artigos que se completam. São Paulo: Cortez Editora, 1982.
• A educação na cidade. São Paulo: Cortez Editora, 1991.
• Pedagogia da esperança. São Paulo: Editora Paz e Terra, 1992.
• Política e educação. São Paulo: Cortez Editora, 1993.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

“Tem alguma coisa errada que não está certo”



João Santiago. Teólogo, Poeta e Militante.

Educador Popular das CEBs no Paraná.

Mestrando em Teologia pela PUC-PR.


Olhando o noticiário desta semana, conversando com as pessoas, ouvindo as conversas de outras, um assunto ganhou ampla divulgação. Logicamente que, falando da semana de 04 a 10 de Setembro, e ainda no ano que completam dez anos do atentado às torres gêmeas, este é o assunto da semana. Não é demais lembrar que a principal potência do mundo, vitimada em tal atentado, vive uma contundente crise. Econômica, financeira, moral, credibilidade e de sentido. Perdi a conta das vezes que (re) vi as trágicas imagens. E eu não sou um exemplo de telespectador. Chega a ser, se é que existe, uma horrorosa beleza. Ou uma beleza horrorosa. Horrorosa, é, com certeza. As cenas são chocantes e comoventes e o ato, a meu ver, indefensável sob qualquer aspecto. Depois de auschwitz, de Hiroshima e Nagasaki, entrará também para a história da humanidade como exemplo do que a maldade humana é capaz. Como diz Viktor Frankl. Temos que ter a coragem profética de Lucas, educador Popular do Piauí e com ele trazer à memória não só quem morre ou quem mata. Ainda há espaço para quem doa a própria vida em defesa das liberdades e de outras vidas. Assim diz Lucas: “Salve Allende, que em 11 de setembro de 1973, entregou sua vida em defesa da liberdade e da legitimidade do poder do povo”. Quem ouviu esta semana algo sobre Salvador Allende?

O dever de quem olha, escuta, conversa e sente, é refletir e refletindo sobre tudo isto, me vêm outras reflexões, os conflitos e as possíveis conclusões. O que faço, faço a partir de meus princípios cristãos e estes têm como valor maior a vida. Foi pensando na vida que cheguei a absolutização da cultura da morte. O principal feito dos Estados Unidos da América, dito e repetido, cantado e declamado, foram duas mortes. Os maiores feitos do império Americano nos últimos dez anos, foram às mortes de Sadan Rousein e Bin Laden. Quem reflete também faz e se faz perguntas. A pergunta que me faço e nos faço é: será que isto é para tentar ocultar os milhares de mortos, sejam de soldados americanos, seja de inocentes, que a mídia insiste em chamá-los de civis, simplesmente, nas guerras justificadas pelo atentado às torres gêmeas? Algo me faz pensar que não é só isto. É, também, a cultura da morte e a cultura da dominação. A arrogância de quem pensa ter os destinos da humanidade nas mãos. E esta posse lhe dar o direito de fazer qualquer coisa, inclusive matar inocentes. Isto me levou ao furioso Herodes, que mandou matar as crianças inocentes, simplesmente por ter sido contrariado, (Mt 2,16). De certa forma, sem exageros, é esse o tratamento a quem discorda das principais instituições da sociedade. Inclusive a igreja e algumas instituições populares. O “prêmio” por ter opinião própria, por ousar discordar, é o desprezo e a indiferença. Formas também cruéis de matar.

Saio buscando nos artigos, nas reflexões e em todo canto, sintonia para minhas inquietações, luzes, quem sabe, mas pouco encontro. No meio de muitas repetições, poucos têm a ousadia profética do Padre José Combin, lembrado por Jon Sobrino em artigo na ADITAL, Assim escreve ele sobre o que disse o Padre Comblin: “Não nos enganemos. O mundo se divide entre opressores e oprimidos. Os primeiros são minorias. Os segundos, imensas maiorias”. (ADITAL, 17/08/11). Outros preferem ainda narrar suas próprias amenidades diárias como se elas fossem exemplos vivos e referência para toda a humanidade. É terrorismo fazer da realidade virtual, vivida em gabinetes e sacristias, a realidade concreta e tantas vezes injusta para as maiorias oprimidas. Vivemos uma realidade cheia de contradições e incoerências, onde é cada vez mais improvável encontrar uma liderança, partidária ou eclesiástica, sobretudo, capaz de se arriscar pela causa que dizem defender. Gastam suas energias e suas “belezas”, para se garantirem nos cargos ou para assumir outro acima do atual. Ser rebaixado de posto, nem pensar! Parece ser a maior derrota da revolução. Nem que tenha que negociar seu projeto e sua antiga causa. Vivem numa zona de conforto que os tornam meras nulidades ideológicas. Lideranças de si mesmas. Retomando o evangelista Mateus, não entram no Reino e trancam a entrada para os que desejariam nele entrar, (Mt 23,13).

É preciso ir além das constatações. É preciso ir além das narrativas e das superfícies, quase vernizes que não têm consistência e não convencem a quase ninguém. É preciso procurar mais que fatos. Procurar as razões que geraram estes fatos. Quem sabe assim, chegaremos às conseqüências destes fatos e nos convençamos de que eles são reais. Vivo, por exemplo, numa cidade que convive com um extermínio de jovens, mas que o debate que mais aparece é o de legalização da maconha. Da redução da maioridade penal. Que a conferência de juventude é feita para combater a ação da juventude. Os que ousam ser jovens são monitorados como se fossem explodir o lindo e romântico jardim botânico. A maioria se absteve de votar na plenária com medo de seus algozes. Na minha cidade, Curitiba, o presidente da câmara de vereadores, ganha concorrências de R$ 30 milhões, (trinta milhões de Reais) com uma empresa de propaganda de sua esposa, sem que, aparentemente, nenhum vereador soubesse. Pode? Penso inclusive em fazer uma campanha de marketing com algumas mensagens. “Filhos de fumantes se tornam anjos mais rapidamente”. Ou, “Drogados não envelhecem e traficantes não se aposentam”. Já que morrem ainda jovem. Depois de conhecer Frei Tito de Alencar, temos referenciais mais que suficientes para sabermos o que significa a vida. Não basta está vivo. É necessário merecer está vivo. Não me basta mais saber que meu partido ou minha igreja, minha religião ou meu sindicado, estão vivos. A pergunta é: eles merecem está vivos? O que é está vivo nestes casos? É escrever coisas que nunca sairão do papel ou efetivamente praticar aquilo que se escreve? Ou nem escrevê-las, mas praticá-las. Na verdade, as lideranças estão muito ocupadas em suas zonas de conforto, preocupadas apenas em se garantirem em seus cargos, para correr riscos “desnecessários” com compromissos assim. É melhor e mais cômodo inventar ideologias e devaneios e tratá-las como se fossem princípios fundamentais. Até quando isto funcionará?

Tem alguma coisa errada nesta história que não está certo. É preciso começar a perguntar: o quê? Por quê? Tenho visto esta geração tratar o patrimônio que recebeu da geração que nos criou, que nos formou, com displicência, às vezes com desleixo. As instituições construídas há vinte, trinta anos ou mais caindo em pleno descrédito, quando não se tornando inúteis e reproduzindo práticas opressoras e de crueldades que trariam grandes sofrimentos aos seus fundadores. As principais ações de libertação, as principais atitudes de grandeza e de fraternidade, sobretudo de gratuidade, acontecem hoje fora das estruturas institucionais. Sinto-me muito à vontade para citar aqui o caso de Jorge, pequeno empresário, dono de um pequeno restaurante no bairro do Boqueirão em Curitiba. Além de uma jornada de trabalho dez horas, as vezes mais, Jorge mantêm uma militância ativa. Participa do Conselho de saúde local; do conselho escolar da escola dos filhos; do Movimento de Moradia e do Grupo Base e Luta do Partido dos Trabalhadores – PT - da zonal do Boqueirão. Ajuda num grupo de adolescentes na escola e me contou uma história exemplar. “Eu sou talvez o único comerciante das redondezas que nunca foi assaltado”. Disse. A única bicicleta cargueira que usa no restaurante foi roubada um dia desses. No dia seguinte mandaram devolver e mandaram um pedido de desculpas e um recado. Diga para o seu Jorge que já foi repreendido quem fez isto. Seu Jorge é um homem bom, é ele quem cuida de nossos filhos na escola. Ensina música, esporte e a ser do bem. É um testemunho vivo de pertencimento e de comprometimento com a comunidade e com a vida. Não é matando que ensina a cuidar da vida.

Curitiba, 11 de Setembro de 2011.